nos 80, quando uma canção atingia o riti pareidi, rapidinho produzia-se um clipe pra ela – e aí, pros mais sensíveis, ou menos toscos, dava-se o busílis: a maioria dos clipes destruía a canção de que se gostava tanto antes de ‘ilustrarem-na’, por exemplo, com uma chuva de esquilos que, durante o solo de uma melancólica guitarra, levava o vocalista a abandonar aquele jeitão blasé [obrigatório, à época] e verter uma – uma só, em close – espessa lágrima, ou sem um rinoceronte parado ao lado de uma loura tocando violoncelo [a loura, não o rinoceronte, que até o bisonho tem limites…] numa rua erma e embaçada pela neve, sem que isso tivesse a mínima conexão com o que a letra dizia.

e quer saber o pior?
a gente gostava…

mas, passado o tempo, o ridículo visual foi pras cucuias e muitas dessas canções preservaram o frescor, a beleza e, logo, o poder de inspirar – tanto que não pode ser coincidência que 97,13% do que se nos apresenta como o “novo” rock soem déja vu a um tipo que, nos últimos 28 anos, torrou toda a herança que nunca vai receber em LPs, CDs, vídeos, DVDs, revistas especializadas, zines, livros e o escambau ao cubo – e, depois, vendendo tudo em sebos, pra pagar 1/3 do papagaio levantado junto ao banco pra saldar o rombo provocado pelas loucuras que fez pra manter um tipo de paixão que, ao contrário de todas as demais, nunca acaba; ao contrário, só aumenta…

nada contra, cultura pop tem mais é que ser antropofágica mesmo.
só me entedia é essa urgência do “novo”, tão cara a um mercado decadente – e a gentes idem, que não se dão conta de que o seu adicto pelo “novo” é um troço tão comédia quanto aqueles parentes e amigos dos seus pais que, em aniversários e festinhas afins, sem que ninguém lhes pergunte picles, ficam lambuzando as oiças dos comensais com aqueles babas de “tenho tantos anos, mas sou jovem aqui, ó [e toc, toc, dedinho na cachola, seguido daquele semblante tipo pimpão]”…

pra quê isso, cazzo? – me pergunto.
não basta sê-lo, deixando que as gentes, pelas idéias e gestos do outro, constatem isso? afinal, a legitimidade, no time de características da personalidade humana, é o zagueirão [e do tipo ‘de roça’], ou seja: logo aos 30s do primeiro tempo, você vai sentir as travas de suas chuteiras em algum ponto entre a testa e o tórax.

depois de muita leitura de Bukowski, Hunter S. Thompson, H. L. Mencken, Ivan Lessa e Veríssimo, tem-se, além daquele imensurável prazer que as canções pop mais perfeitas nos causam, a compreensão de que a coisa mais valiosa nessa vida é a concisão, ir direto ao ponto nas coisas, na veia das bichas.

dito isso, foda-se o novo.
na cultura pop, como em todas as demais, a única coisa que se pode chamar de ‘novo’ é o público para o qual o mercado precisa vender mais do mesmo, só que com outra embalagem.

existem as canções que nos agradam – e que sempre agradarão – e as que sempre nos farão preferir atravessar espetos nos tímpanos…
só e fim.
todo o resto é propaganda disfarçada de matéria em caderno cultural, ou, ainda pior, papo de crítico querendo ganhar uma boquinha na turnê do novo da vez.

o ‘novo’ clipe de radiohead, tão insensado [tédio…], é uma variação dessa antropofagia: nada de novo, sonoramente, mas, para uns e outras pelaí, ver o thom yorke pagando de dançarina de axé em furiosas crises de bipolaridade não pareceu somente isso – além de um pretensioso [como sempre] auto-plágio -, foi o que bastou para, entre sussurros e gemidos de “o novo radiohead…”, ensoparem calcinhas e cuecões…

dá até uma vontadezinha de provocar, dizendo que o gozo se dá não porque radiohead apresentou algo de novo, como já li uns e outras pelaí dizerem, mas apresentou, de novo, o que tod@s querem escutar – de novo e sempre [e a grande mágica das boas canções é mesmo essa, que nos iguala às crianças que adoram um certo desenho a ponto de assisti-lo duzentas e dezenove vezes em uma semana…].

mas a vontade de provocar passa logo, quando penso na quantidade de pseudos análises técnicas e teóricas que ouvirei, na vã tentativa de junkies do novo justificarem a adoração e, mais que tudo, a manutenção de sua pose de indie – independente de quê [de quem], bwana? –, um dos anacronismos mais bizarros da cultura pop, considerando-se que o clubinho só faz aumentar, o que extermina a ‘exclusividade’ que se pretende aparentar…

não dá pra simplesmente dizer que gosta de ouvir as canções?
simples, esplendidamente simples, assim.

caso dessa aí, abaixo, que eu adoro – esse violão base, esse baixão… – , apesar do crocodilo na piscina e, céus!, dos mullets do camaradinha…

007 contra $inhá mídia

Publicado: 6 de fevereiro de 2011 em Uncategorized

não sei quem são os autores dos mais variados obituários publicados na mídia sobre o arranjador britânico John Barry, cujo coração pifou, no último dia 30, aos 77 anos.

mas são todos preguiçosos, ou, sei lá, só mesmo filisteus, pois todos creditaram a Barry a autoria de um dos mais famosos e geniais temas já criados para o cinema em todos os tempos, o de James Bond.

tsc, tsc…

Barry compôs arranjos e ou trilhas para dúzias de filmes, entre os quais,  “Perdidos na Noite”, “Chaplin”, “King Kong” [a segunda versão, dos 70, com Jessica Lange levando o macacão à estupidez de morrer por amor…], os ensopa-lenços “Em Algum Lugar do Passado” e “Entre Dois Amores”, e, sim, em 11 filmes de James Bond, o – atenção – arranjo que se ouve é o seu.

clap, clap, clap!, totalmente ótimo, sujeito batuta [foi maus aí o trocadilho] e tal e cousa, mas a autoria desse tema, ao contrário do que toda a mídia afirmou, não é dele, mas  do também britânico compositor e arranjador – só que obscuro –  Monty Norman.

tá, olhando a foto dum e doutro, e considerando-se a sofisticação do arranjo para as cordas e para o naipe de metais, todos apostariam que o autor da trilha é o primeiro, com o segundo sendo, sei lá, um pianista da orquestra do primeiro, que este contratou num período em que estava com otite, e que, curado, demitiu, não sem antes quebrar uma batuta em sua cabeça.

exceto por este tema, nada que Monty Norman tenha composto é digno de registro.
montou uma orquestra, compunha uma e outra trilha para cinema. ponto – e vírgula.

um dia, sacou duma guitarra elétrica e arriscou uns acordes que pareciam próprios a um gênero ainda nos primeiros chicletes, o rock. achou interessante, lambeu a ponta do lápis, escreveu um arranjo praquilo, gravou-o com sua orquestra, o tema foi usado no 1º filme, “007 Contra o Satânico Dr. No” – naquela [já ‘clássica’] vinhetinha de abertura dos filmes de Bond -, e o resto é história.

a diferença de seu arranjo para o de Barry é mínima: na versão deste, os metais são menos, digamos, heavy – afinal, Bond já nasceu com 40 e poucos anos, e só ouviria rock numa missão que exigisse seduzir uma garota, para, depois, durante o cigarrinho, arrancar-lhe alguma informação confidencial – obtida, que chato, ele a mataria com a agulha da vitrola, que previamente embebeu, rá!, em curare…

divaguei, perdão, volto ao plá.
por que escrevi esse texto sobre alguém nada “famoso”? por duas razões.

por execrar uma mídia cada vez mais composta por profissionais que, com a chegada do gúgou, mandaram ao beleléu uma das funções mais importantes do ofício de informar, a apuração – e, neste caso, sobre um ‘clássico’ da cultura pop, que tornou-se paradigmático ao gênero, com diversos filmes e ou seriados de aventura usando trilhas influenciadas por este [quando não chupadas mesmo], que, portanto, merecia mais respeito, se não aos seus criadores, vá lá, aos fatos.

e porque essa cultura jeca de “celebridades” mitifica imagens e tipos, como se tudo e, principalmente, todos mais que trabalham para que uma produção tenha êxito fossem desinteressantes.

hoje, sabe-se tudo sobre o Daniel Craig [o bom 007 da vez], da grife de suas cuecas, passando pelo carro que tem, chegando às suas preferências [homo]sexuais, mas a questão é: e daí?
agora imagine Bond sem o delicioso tema que traduz à perfeição tudo de fascinante que tem?

Norman, Monty Norman.

taí, abaixo, o tema, colhido no você-tubo – e, reflexo direto da desinformação a que me referi, ao contrário do que informa [sic] o título, o arranjo apresentado é o de Barry…
só assistir “007 Contra o Satânico Dr. No”, pra conferir.